Com novelos de lã, tecerei um novo mundo para os velhos

Quando eu for mais velha, vou viver em posição de lótus

“Quando eu for mais velha, vou viver em posição de lótus”

Déa Januzzi

Quando eu for bem velha, vou escrever poemas nas paredes, no papel de pão, em rolos inteiros de papel higiênico. Vou tirar a poeira da minha antiga máquina Remington, de teclas verdes, e rasgar muitas folhas, em busca do lead perfeito. Vou viver o tempo do calendário Maia, com apenas 28 dias no mês, 13 luas e muitas ondas encantadas. Nunca mais vou pintar o cabelo, pois cada fio branco contará sobre os meus medos, pesadelos, incertezas, inquietações e amarguras.

Quando eu for bem velha, também, vou ter a minha “Pasárgada”, que tem nome de Shangrilá, a ecovila dos meus sonhos. Nada de asilo, mas vou morar em comunidade, bem no estilo anos 70. Só que mais ordenada, autossustentável. Vou ficar horas andando no labirinto sagrado para encontrar o meu centro e entrar em sintonia com as fases da lua.

Vou comer até me fartar. E somente coisas de que eu gosto, mas também vou sentar sozinha num bar e pedir uma cerveja estupidamente gelada. Vou tomar vinho em todas as estações do ano. E só os abrir ouvidos para as coisas que me interessam. Vou aprender a dançar tango, bolero, valsa de Strauss e a fazer mandalas com retalhos coloridos.

Quando eu ficar bem velha, vou virar Perséfone, a deusa do oculto, do desconhecido, do que não pode ser decifrado, mas abrirei a alma para outras deusas do amor, como Afrodite. Minha bengala será uma espécie de cajado do poder. Com ele, vou abrir todas as portas dos prédios para espantar os anões dos jardins. Vou fazer um movimento pela libertação dos anões e sapos de jardim. Vou tocar cada um deles com o meu cajado, para que ganhem vida e saiam correndo daquela posição imóvel, sempre igual.

Quando eu for bem velha, vou acender uma fogueira no meu coração. Vou viver de sóis e uivar para a Lua. Vou contar histórias do passado para os meus netos e tentar adivinhar o futuro nas cartas de tarô. Vou pintar a minha casa de laranja, tomar banho de cachoeira, andar descalça na chuva, confeccionar barquinhos de papel para descer nas enxurradas.

Quando os ossos estiverem bem gastos, vou ficar atenta aos sons da velhice. Vou contar uma a uma as rugas do meu rosto. Vou fazer uma biblioteca com todos os livros que amo e comprar uma lupa, para que as letras não fujam dos meus olhos e não se apaguem para sempre.

Vou deixar fluir o melhor de mim, a mais pura fantasia, o nobre metal, o ouro que ficou tanto tempo escondido no meu peito. Vou amanhecer cantando e dormir depois de mergulhar em profunda meditação. Vou viver em posição de lótus e fazer acrobacias mentais para não esquecer os meus melhores momentos. Vou virar hippie de novo, com aquelas roupas largas que ventam, bordadas com pedras e vidrilhos – e usar sandálias coloridas. Vou colocar flores nos cabelos brancos e colares de rainha. E quem sabe vou mudar para Portugal, onde os aposentados brasileiros podem viver legalmente com ótima qualidade de vida, “entre guitarras e sanfonas, sardinhas e mandiocas, num suave azulejo”, como canta Chico Buarque, em Fado Tropical.

Quando for bem velha, e já estiver instalada em Shangrilá, vou convidar Cid Ornellas para tocar violoncelo, aquele instrumento vazado, tão escultural, com um som tão profundo quanto o oceano. Quando estiver bem velha, vou fazer castelos de areia e esculpir lembranças com argila. Vou comer sushi e sashimi no almoço e no jantar. Vou me fartar de salmão cru com raiz forte e wasabi e pintar as unhas com esmaltes de estrelas. Quando eu for bem velha, vou colocar pétalas de rosas nas saladas e só vou fazer o que eu gosto.

Vou pedir a Fátima Carretero, amiga de muitas jornadas, que ensine dança flamenca para as velhas da aldeia da sabedoria. Vou colocar vasos nas janelas do meu quarto, com manjericão, hortelã, erva cidreira e vou plantar a semente da fé, para que germine esperança e eu possa colher ainda muitos amanhãs. Quando eu for bem velha, vou fazer tudo com calma, sem pressa. Serei artífice das palavras e tecelã de ilusões. Com novelos de lã, tecerei um novo mundo para os velhos de um futuro cada vez mais próximo.

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11 comentários

  1. teresa caetano miguel* campos

    cantarei louvores e amarei a todos os seres viventes e saberei aceitar as perdas …

  2. Amiga Déa, mais um exemplo do seu incrível talento. Quero viver junto com você está velhice!
    Um grande abraço e admiração. Judy

  3. carmelita bocater bittencourt

    Nunca se escreveu tanto sobre a maturidade, velhice, terceira idade e tantos. Déa Januzzi escreve sobre um lado bonito a se escolher ou ser. Temos de nos cuidar hoje para sermos assim daqui alguns anos. A minha escolha já está sendo administrada. Que todos nós tenhamos essa entrada de chegarmos ao ponto de sonhar tanto. Cada pessoa, cada cidade é uma faca de dois gumes e nós temos de tentar descobri-lo. Parabéns Déa. Domingo brilhante para todos nós. Beijão.

  4. Eu é que tenho de agradecer a todas vocês que me nutrem de mensagens maravilhosas. Gratidão

  5. Teresinha Mentzingen

    Quando eu for bem velha, vou retornar à adolescência, ficar rebelde e só fazer o que me der na telha, quandoeu for bemvelha,serei infinitamente feliz, sem castigo, broncas, mas com todos s meus sonhos enfim realizados …

  6. Encantanda com tão sábias palavras.
    Tenhos todos os dias e horas a nosso favor para saboriar coisas como essas.
    Abraços carinhosos a todos que comungam dessa energia.

  7. Adorei, o que você escreveu, quero envelhecer com você para podermos nos divertir muito e dar boas risadas, e não pensar no amanha, viver o presente sem medo de nada! parabéns amiga, bjoss

  8. Déa, gostaria de estar com você em alguns desses momentos. Iremos rir à beça! Não ficarei lhe dando os parabéns a cada comentário. Sereia óbvio demais. Você é um talento Nacional. MaGrace sempre sua!

  9. Enquanto essa velhice não vem, ou enquanto não nos percebermos dela, vamos rezando e nos cuidando suficientemente para que, em se chegando lá, tenhamos saude e disposição para vivermos essa fase que, pode sim, ser maravilhosa, se tivermos saude pra aproveitá-la.

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