Elza Cataldo faz filme sobre a inquisição no Brasil

Um retrato de um tribunal do "Santo Ofício" pintado pelo espanhol Goya

Um retrato de um tribunal do “Santo Ofício” pintado pelo espanhol Goya

Maya Santana

Assim que concluiu e lançou o longa metragem Vinho de Rosas, sobre a filha de Tiradentes, em Minas Gerais, no século 18, a cineasta Elza Cataldo, 59 anos, partiu para outro grande projeto: As Órfãs da Rainha, – filme, em fase de captação de recursos, que conta a saga de três mulheres enviadas pela rainha de Portugal para o Brasil, no século 16, com a missão de se casar e formar as primeiras famílias do novo mundo. A chegada das jovens portuguesas cristãs novas – descendentes de judeus convertidos – coincide com a instalação da inquisição em território brasileiro. É neste cenário que o drama se desenrola.

Até chegar ao roteiro final de seu novo filme, cinco anos mais tarde, a diretora fez uma verdadeira imersão em uma área que lhe dá grande prazer: pesquisar a História brasileira. Estudou em detalhes livros e outros documentos encontrados em Portugal, na Espanha e no Brasil, onde a inquisição permaneceu durante 242 anos, – 1579/1821 -, atuando diretamente em cinco estados: Bahia, Pernambuco, Paraíba, Rio de Janeiro e, com a descoberta do ouro, no século 18, Minas Gerais. Esta é uma parte da História do Brasil pouco conhecida, raramente abordada em filmes produzidos no país.

A preparação de As Órfãs da Rainha, que também será exibido pelo canal de televisão GNT, no formato de série, incluiu um profundo estudo temático, artístico e de locação nos três países, além da realização do documentário A Santa Visitação e do curta-metragem de ficção Ouro Branco. Como ponto de partida do projeto, a cineasta contou com a consultoria do professor Ronaldo Vainfas, um dos principais historiadores do país. “As pessoas, de uma maneira geral, sabem pouco sobre esse período da nossa História, marcado sobretudo pela intolerância. O tema está praticamente ausente do audiovisual brasileiro”, afirma Elza Cataldo.

Elza Cataldo, 59 anos: apaixonada pela pesquisa histórica

Elza Cataldo, 59 anos: apaixonada pela pesquisa histórica

Órfãs da Rainha, adianta a diretora, terá filmagens na Bahia, onde primeiro a inquisição se instalou, estimulando delações e espalhando um clima de terror através dos temidos visitadores e auxiliares. Também haverá cenas filmadas no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Em todos estes lugares as vítimas da inquisição eram bígamos, blasfemos, praticantes de “bruxaria”, aqueles com condutas sexuais condenadas pela Igreja e, principalmente, os cristãos novos. A inquisição prendeu e mandou para Portugal “réus” que morreram queimados na fogueira.

Foi Paris que acabou despertando na mineira de Tocantins, cidade da Zona da Mata do estado, a paixão pelo cinema, mudando totalmente a sua trajetória profissional. Elza deixou a Universidade Federal de Minas Gerais em 1978 com o diploma de Psicóloga. Em seguida, fez mestrado em Educação, prestou concurso e tornou-se professora da UFMG. Uma bolsa para fazer doutorado em política educacional na prestigiada Universidade Sorbonne, logo no início da década seguinte, levou-a à França. Só deixou o país cinco anos depois, não apenas com o diploma de doutora, mas com o curso de cinematografia, realizado na Universidade de Nanterre.

Ronaldo Vainfas: consultor de História

Ronaldo Vainfas: consultor de História

“Paris é por si só uma cidade cinematográfica. Lá, eu tinha acesso ao que havia de melhor da cinematografia internacional. Comecei a ir ao cinema todos os dias, a ver filmes de várias nacionalidades. Tornei-me uma cinéfila. Foi quando decidi fazer o curso de cinema”, conta Elza Cataldo, no momento, fazendo os preparativos para a leitura do roteiro de As Órfãs da Rainha por atores, nesta quarta-feira, dia 7, na Gávea, Rio de Janeiro, na sede da ITMix, uma das três produtoras envolvidas na realização do filme. As outras são a mineira Persona Filmes e a também carioca Arte em Movimento.

Depois de seu retorno da França, antes de se dedicar totalmente a fazer cinema, Elza foi exibidora/cinéfila em Belo Horizonte. Seu primeiro longa metragem, Vinho de Rosas, 2005, consumiu oito anos de trabalho. A partir daí, veio uma sucessão de curta-metragens – além dos citados A Santa Visitação e Ouro Branco, O Crime da Atriz, Lunarium – Retratos em Azul e outros – até chegar a este Órfãs da Rainha – denominação dada às mulheres que vieram para se casar em terras brasileiras, originando as famílias que foram progressivamente ocupando outras regiões do Brasil.

A produção do filme está a cargo de Isabel Gouvêa, coordenadora de arte dos premiados Lavoura Arcaica e Cidade de Deus, entre outros, e Fabrício Coimbra, diretor-executivo dos documentários Flores de Pilões e Silêncio das Inocentes. Para Elza Cataldo, é importante a ponte que Órfãs da Rainha faz entre o passado e o presente: “Este é um filme que trata de amor e intolerância nos primórdios do Brasil. Um tema que, infelizmente, apesar da passagem dos séculos, ainda permanece atual, nestes tempos conturbados em que vivemos”, reflete ela.

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Um comentário

  1. Muito interessante uma ideia histórica,cultural,com certeza fara muito sucesso,!!!!!

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