Esqueci o fogão ligado e meu “ato de amor” virou carvão

 No caso da autora, o fogo não chegou a ficar assim, mas  inutilizou o almoço

No caso da autora, o fogo não chegou a ficar assim, mas inutilizou o almoço

Elisa Santana –

Silenciei a panela que fervia fazendo um barulho insuportável, tirando a tampa. Acho que acordei nervosa, porque só quando estou impaciente é que algumas coisas me incomodam. Preparo uma calda para terminar um doce que estou fazendo. A calda ferve, fazendo a tampa bater contra a panela, e o som incomoda. Pensando bem esse é um barulho de nada. São só oito e meia da manhã e eu não quero me incomodar com barulho desnecessário ainda cedo.

Enquanto faço isso, penso no quanto me dá prazer cozinhar. Gosto da alquimia dos temperos, de pensar em quem vai comer. Cozinhar é ato generoso consigo próprio e com o outro. É ato de amor. Às vezes, é cozinhando que me percebo melhor. É cozinhando ou tomando banho que dou de pensar nas coisas da vida, dou de cantar, me dar conselhos, falar sozinha. Ligo coisas e assuntos. Ideias que ainda não haviam surgido. É um jogo que o cozinhar e o me banhar permitem: o preparo de alimentos na panela e o preparo de idéias na cabeça.

Como eu voltaria para casa a tempo de almoçar, resolvi adiantar meu arroz integral, ao mesmo tempo em que preparava a calda e o meu café. Mulher é desdobrável, já dizia Adélia Prado. O problema é quando a gente confunde isso com onipotência e se desdobra demais. Alguma coisa acaba sempre saindo errada e termino o meu dia exausta. Mania de querer dar conta de tudo à tempo e à hora.

Antes que eu me atrasasse, desliguei a calda, deixei o arroz cozinhando, fui tomar meu banho. Tive o cuidado de colocar água o bastante no arroz para que não secasse e eu pudesse terminar minhas tarefas antes de vir olhá-lo pela última vez.

Quando voltei à cozinha, já estava a um fio de cabelo de me atrasar. Reparei que havia colocado água demais. Resolvi tirar o excesso e guardar, pois estava temperadinha, para por de volta. Tornei a colocar a panela no fogão com o mínimo de água. O bastante para não ressecá-lo demais. Peguei minhas coisas e saí rápido, senão me atrasaria.

Eu não me atrasei, mas meus compromissos sim. A sorte, pensei, é que minha vida em casa estava adiantada, podia chegar, almoçar com alguma folga e sair pro trabalho à tarde tranquilamente.

Estava entrando no carro para voltar para casa e o telefone tocou. Era a minha filha. Queria saber o que é que eu havia deixado no fogão, que além de virar carvão, acabou com a panela e com o ar da casa? A vizinha já estava pensando em chamar o corpo de bombeiros, disse-me ela. Eu só consegui balbuciar: exagerada!

A verdade é que a panela ficara 3 horas e meia no fogo. Quando cheguei, o cheiro de fumaça havia tomado o apartamento. O ar estava irrespirável e assim ficou por bom tempo. A panela foi para o lixo. Fiquei pensando na minha displicência perigosa: quando tirei o excesso de água do arroz, voltei a panela para fogão sem desligar o fogo.

Como preço pela minha imprudência, acabei fazendo o que me salva, mas não o que mais gosto: fui almoçar fora. Enquanto comia, até certo ponto agradecida, pensei no arroz queimado que eu jogara fora, enquanto falava alto para minha filha: – Lá se vão o meu ato de amor e a minha generosidade de hoje para o lixo.

Elisa Santana, 58, é professora de Teatro na PUC-Minas, autora do livro de poesias “Os Peixinhos do Meu Pano de Prato” e lançou em 2015 o seu primeiro CD, Soneto 88.

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2 comentários

  1. Tudo que vc faz, como sempre não me surpreende. Adorei tudo e, sua forma de dizer com tanta propriedade deixa o indesejável bem mais leve.

  2. Delicioso o seu texto, Lisa, adorei!

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