Ex-miss que namorou escritor Rubem Braga perambula pelas ruas

Em 1965, Sônia Schuller foi vice-Miss Guanabara. Hoje, com Esquizofrenia, vive zanzando pelas ruas

Sônia Schuller. vice-Miss Guanabara 1965. Hoje, com Esquizofrenia, vive como andarilha

Maya Santana, 50emais

Esta manhã, voltei a ver Sônia Schuller. Ela passou a uns dois metros de mim, na Ataulfo de Paiva, no Leblon, mas não me viu. Tinha o costumeiro ar absorto, com o rosto sempre voltado para frente, caminhando como se fosse um autômato, aparentemente, sem saber muito bem para onde estava indo.

Pensei em abordá-la, como faço de vez em quando. Mas desisti. Fiquei olhando quando se misturou à pequena multidão que, nestes dias de muito calor, toma conta das ruas e das praias da cidade. Vestia a mesma calça já surrada e bem suja. Carregava uma sacola ainda mais cheia – e mais pesada – do que da última vez que a avistei.

Sônia Regina Schuller virou um personagem do cenário urbano carioca. Ainda pequena, veio com a família de Santa Catarina para o Rio de Janeiro. Morava em Ipanema. Destacou-se logo pela beleza. Chegou a ser eleita vice Miss Guanabara 1965. “Ela era ensolarada, cheia de energia e tinha um sorriso lindo”, lembrou o advogado Daslan Mello Lima, criador de um blog sobre misses, numa reportagem publicada pelo jornal O Globo.

Naquele tempo, 50 anos atrás, chegou a ter um namoro com o escritor Rubem Braga, morador de um apartamento que virou lenda, em Ipanema. De lá para cá, tudo mudou. Foi atropelada por uma moto, perdeu todos os dentes e, mais tarde, diagnosticada com esquizofrenia. Transpondo a vida de Sonia para 2015 é como se o sonho dourado dos anos 60 se transformasse num longo, trágico pesadelo do qual, possivelmente, a ex-miss jamais acordará.

A reportagem do jornal O Globo sobre a história de vida da ex-miss

Tornou-se andarilha. Vive zanzando pelas ruas de Ipanema, onde mora, e do Leblon. Está sempre com a mesma roupa – camiseta, calça comprida e sandálias havaianas -, faça chuva, faça sol. E alterna momentos de muita lucidez com um certo distanciamento, um vazio estampado no semblante. Nunca me pede nada.

Outro dia, encontrei-a sentada em um banco, bem em frente a uma lanchonete. Perguntei se gostaria de tomar um suco. Os olhos de Sônia brilharam: “Se você puder pagar uma vitamina de abacate, eu gostaria muito. É uma delícia”. Pronuncia bem as palavras. Sentei-me ao seu lado, ela já com a vitamina na mão. Começamos a conversar sobre animais. Ela confessou que adora cachorros, já teve vários, mas, no momento, “não tenho condições de ter um”.

Muitas vezes, a gente se encontra e conversa um pouco. A conversa rende mais ou menos, de acordo com o estado de espírito dela. Há alguns dias, me deparei com ela sentada na grade baixinha que protege uma árvore frondosa, outra vez na Ataulfo de Paiva. Tinha um caderno e uma caneta nas mãos e escrevia algo engraçado. Olhando fixamente a página, ela ria, ria muito, totalmente alheia ao burburinho ao seu redor.

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Desde que li sobre Sônia Schuller pela primeira vez, em junho de 2013, numa extensa reportagem em O Globo, a história de vida dela me impressiona muito. Seu drama está sempre voltando à minha cabeça, porque, volta e meia, eu me encontro com ela, como esta manhã, carregando, olimpicamente, suas tralhas na sacola transbordante.

Da beleza “ensolarada” da década de 60, restaram apenas os olhos, profundamente azuis. E incrivelmente inquietos.

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6 comentários

  1. As misses nessa época tinham pernas roliças e quadris marcantes. Eram lindas! Hoje são muito magras e sem graças. Muito triste essa história e com certeza ela deve precisar de ajuda!

  2. Se essa pessoa “algum dia” deu alegria a esse pais.
    Esse pais não faria nenhum favor em retribuir-lhe a alegria e dignidade.

  3. Maria Cristina Bahia

    História triste e ao mesmo tempo bonita. Uma moça linda, admirada, que na velhice sai andando pelas ruas da zona sul do Rio, arrastando uma sacola e sempre com a mesma calça. Belo texto, Maya!

  4. Estudamos na infância na mesma escola, Escola Joaquim Abilio Borges, no jardim Guanabara Ilha Gov.
    Quando vi a reportagem no jornal fiquei triste. Ela era muito linda mas houve revés. Hoje à encontrei no Leblon, conversamos, me pediu 1 R$, e nos despedimos.
    Quando encontro a Sonia Regina, sempre chamo ela para comermos

    • Antônio, encontro sempre com Sônia no Leblon. Também sempre dou uma ajuda. Gosto muito, muito dela. Forte abraço para você!

    • Não posso abandonar uma amiga de infância. Sempre q a encontro conversamos um pouco ( muitas vezes ela não quer papo) e dou um trocado para os cigarros e a cervejinha q ela adora.
      Dói muito à ver nesse “estado”. Ela era uma menina linda e depois se transformou numa bela mulheres sgora a decadência e o abandono

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