Frustração e medo diante da crise econômica brasileira

"Quase 90% das pessoas acham que a crise vai piorar"

Socióloga Fátima Pacheco Jordão: “Quase 90% das pessoas acham que a crise vai piorar”

Beth Cataldo, G1

Como pesquisadora independente e especialista em opinião pública, a socióloga Fátima Pacheco Jordão costuma vasculhar os sentimentos das pessoas para descobrir tendências e percepções. O impacto da crise econômica sobre os brasileiros é um dos temas que ela aborda na entrevista que concedeu ao blog, com ênfase no aprendizado acumulado pela sociedade nas últimas décadas. A geração que não conheceu as agruras da inflação elevada dos anos 1980 enfrenta agora sua primeira grande crise econômica, revelando “frustração e medo”, segundo ela, diante das incertezas do futuro.

Fundadora de entidades não governamentais, como o Instituto Vladimir Herzog, o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) e o Instituto Patrícia Galvão, ela pesquisa e valoriza o papel da sociedade. É diretora da empresa FPJ – Fato, Pesquisa e Jornalismo. No seu radar, estão os movimentos sociais que moldaram uma nova percepção na sociedade brasileira sobre corrupção e eficiência do Estado. Sua convicção é que a opinião pública nunca teve um papel tão importante na história do país como agora.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Pergunta – Como você acha que está o ânimo dos brasileiros diante desta profunda crise econômica?
Resposta – As pessoas estão expressando com muita clareza sua apreensão em relação ao futuro. Quase 90% acham que a crise vai piorar. Todos os indicadores familiares, incluindo o desemprego, desenham um quadro com uma visão de futuro muito negativa. As pessoas estão, de fato, bastante contrariadas. Mas não há raiva nesse processo. Há uma enorme frustração, angústia e medo. Agora, por que elas estão se expressando assim, é algo mais complexo, que tem a ver com um processo muito mais longo.

P – O que estaria por trás desse processo?
R – É uma geração de brasileiros que, de alguma forma, nunca enfrentou a inflação. São pessoas que vêm de um longo período de estabilidade econômica, que foram treinadas ou formaram sua concepção de preços nesse ambiente. Portanto, há uma mudança sensível. No passado, variações de preços, a inflação alta, afetavam tanto quanto agora, mas as pessoas tinham mecanismos para se defender. Grandes compras nos supermercados, dois, três carrinhos cheios, para dar estabilidade através da prateleira. O recurso à poupança, as aplicações financeiras da classe média, o uso intensivo de oportunidades de promoções, liquidações, enfim. Agora, as pessoas estão desprevenidas. Para elas, foi um processo longo de preparação para a estabilidade, uma coisa bastante pedagógica. E, de repente, nada disso vale mais.

P – Houve um movimento de ascensão social no Brasil nos últimos anos, especialmente da classe C, que passou a ter mais acesso ao consumo e à educação. Agora, esses ganhos podem ficar comprometidos pela crise econômica. Como as pessoas se sentem no meio disso tudo?
R – Vou insistir na questão do aprendizado. Nos últimos anos, tivemos também, assim como no caso da estabilidade dos preços, um processo pedagógico muito forte ligado à questão de imposto e orçamento. No início dos anos 1990, a primeira transmissão de CPI ao vivo foi a dos anões do orçamento, em que se explicitaram muito claramente as limitações orçamentárias, as escolhas. Os chamados governos democráticos, que vieram pós-golpe, também praticaram uma espécie de participação, com mais transparência em relação a esse assunto. Covas, em São Paulo, até fez uma exposição na TV Cultura sobre orçamento, explicando porque decidiu tirar daqui e colocar ali. Prefeituras de várias cidades, sobretudo de extração petista, fizeram o orçamento participativo. E aí é um processo realmente mais do que pedagógico, é educativo. Nesse momento em que se agrava a questão da corrupção, temos esse aprendizado dado. Ou seja, as pessoas entenderam muito rapidamente nos últimos anos que, invertendo o slogan, com corrupção não dá para fazer.

P – Criou-se uma certa intolerância à corrupção?
R – Exatamente. Uma intolerância de ordem pragmática, de ordem racional, porque os serviços começaram a degringolar. A demanda de serviços, como saúde e transporte, cresceu muito, encareceu. A rede de serviços aumentou sem que tenha aumentado a qualidade – nas escolas, nos postos de saúde. De fato, houve uma fase de construção e ampliação das redes de serviços. Só que não veio o conteúdo, não veio a boa performance. As pessoas se frustram com isso. Elas aprenderam que há uma questão de prioridade e que o dinheiro é curto. Nas pesquisas, chegam a usar até a expressão de que “o cobertor é curto, a gente sabe”. A corrupção começou a ser uma vazante, um ralo, muito perceptível. Mais da área prática, da visão concreta da vida das pessoas do que da área ética. Não é “udenismo”. É outro Brasil. Não é moral e ético, é pragmático. Clique aqui para ler mais.

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