Kairós, por Elza Cataldo

Elza Cataldo

Depois que ela morreu o relógio nunca mais tocou. As batidas precisas que enchiam de sonoridade a casa, ficaram em silêncio. Como tudo o que lhe pertencia, o relógio era meticulosamente acertado e nutrido. Sua corda durava uma eternidade, pois raramente ela era vista na lida horária. As horas seguiam na sua inevitabilidade. De certa forma, isso confortava. O tempo era perdoado. Era como se a vida seguisse o curso natural junto com o relógio. Enquanto ela foi viva, ninguém nunca tocou a corda camuflada em números. Não precisava: ela jamais esquecia suas funções de manutenção doméstica. E o relógio pendurado na parede fazia parte da rotina da casa. Às vezes, à noite, as badaladas pareciam mais fortes e mais dramáticas. Para serem redimidas por aquelas que anunciavam o dia.

Depois que ela morreu o relógio nunca mais tocou. A filha procurou em vão o motivo (tinha ímpeto de bricoleur). Até que desistiu e resolveu levar o objeto inerte para um relojoeiro. Escolheu a dedo, o melhor da cidade. Não se decepcionou. Trata-se de um homem honesto. Depois de uma semana de observação minuciosa, deu o veredito. O relógio não apresentava nenhum defeito. A filha foi buscá-lo envolvida por uma inesperada onda de entusiasmo. No caminho, parou para tomar um sorvete de manga. E se deu conta que estava alegre novamente. Levou o relógio para casa em posição de criança recém-nascida. Talvez já estivesse vislumbrando um novo tempo. Para a casa. Para ela. Porém, assim que colocou o relógio na parede, uma gota de medo ainda lhe afligiu o coração. Será que ele voltaria a funcionar? (O coração? O relógio?). O pequeno medo foi suficiente. O relógio não funcionou.

Então, a filha fez um esforço. (Será que sua força tinha voltado?). Olhou, olhou, olhou o relógio. Corajosamente. Amorosamente. Verificou que ele estava fora do prumo. Ajustou seu corpo rente á parede e, de repente, um turbilhão de badaladas sincopadas encheu o ambiente. O pêndulo dançou de um lado para o outro. Seu movimento ganhou força e liberdade. Estava vivo.

* Cineasta e escritora

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2 comentários

  1. O tempo sempre é vivo. Vívíssimo! Ainda bem, né não Elza?

  2. Depende de nós transformar o tempo em um bom aliado ao longo da vida. LIsa, abraços para você.

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