Lya Luft: O tempo, feroz amigo

Quando não pudermos mais realizar negócios, viajar a países distantes ou dar caminhadas, poderemos ainda exercer afetos, agregar pessoas, ler bons livros, observar a humanidade que nos cerca

Maya Santana, 50emais

Nesta crônica, publicada recentemente no jornal Zero Hora, a escritora gaúcha Lya Luft fala de um tema ao qual ela está sempre recorrendo: a passagem implacável do tempo e a “implicância” – quem sabe, medo – que demonstramos ter de palavras como envelhecimento, velho, velhice e outras derivadas. Num tempo em que o número de pessoas com mais de 60 anos explode no Brasil – e só tende a aumentar – Lya chama a atenção para a nossa luta vã contra a realidade.”

Leia:

É uma das esquisitices do nosso tempo que na época em que mais tempo vivemos haja tanta dificuldade em relação ao que se convencionou chamar velhice. Palavras significam emoções e conceitos, portanto também preconceitos. Por isso, quero falar de minha implicância com a implicância que temos com os vocábulos – e a realidade – velho, velhice.

E, como gosto de historinhas, algumas, como esta, reais, lembro um episódio com Tônia Carrero, ainda uma linda mulher aos oitenta anos. E certa vez alguém lhe perguntou: “Tônia, chegando aos oitenta, como você lida com a velhice?”. Todos gelaram, mas ela, em pé no meio da sala, possivelmente com um cálice de champanhe na mão, respondeu sem hesitar: “Ora, eu acho ótimo. Porque a alternativa seria a morte”.

E todos acharam maravilhosa aquela presença de espírito, e aquele pensamento. Naturalmente, nem ela, nem ninguém gostaria de envelhecer com as doenças, perdas e fragilidades que tantas vezes nos acompanham quando o número de anos cresce assustadoramente. Mas que, pelo menos, não sejamos velhos chatos e sombrios, eternamente reclamando de tudo e de todos.

Quando não pudermos mais realizar negócios, viajar a países distantes ou dar caminhadas, poderemos ainda exercer afetos, agregar pessoas, ler bons livros, observar a humanidade que nos cerca, eventualmente lhe dar abrigo e colo. Para isso, não é necessário ser jovem, belo, com carnes firmes e pele de seda… ou ágil, mas ainda lúcido.

Viver deveria ser poder celebrar sempre mais um dia: o nosso, e dos que amamos. E, em momentos de dor indizível, redobrar sem espalhafato, com delicadeza, o amor de que somos capazes.

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8 comentários

  1. Raquel Zari Matias da Silveira

    Sou fã de Lia a muitos anos , suas crônicas ,seus livros são indispensáveis .Tenho 80 anos incompletos sempre acompanhando sósias escritas e concordando com tudo ,não somos velhas mas sim mais experientes.

  2. Lia luft com o passar dos anos cada vex lhe admiro mais!!!!

  3. Maravilhosa como sempre!

  4. Mauricio Rodrigues Costa

    Os tempos são outros, evoluímos e os conceitos também evoluíram. Ter uma vida plena em quaisquer idade, significa exercitar a mente e o corpo, e la na frente, se colhe os frutos.

  5. Entender a problemática existencial sem ser amargo com o tempo e o devir universal das coisas. Viva muito longamente por deleite de novos textos ainda mais magníficos, na grande aventura da vida
    J. Fausto Toloy
    Médico – escritor

  6. Lya! Saber escrever e expressar o que sentimos é uma arte e uma arma que nos impulsiona a continuar, seguir em frente e nos identificarmos com o outro. Você consegue ser sábia, realista e otimista. Aprendo sempre com o que escreve! Obrigada, Saudades de você. Rita Luz

  7. Como é gratificante correr os olhos por uma escrita sábia e contundente que nos inspire a viver e agradecer cada dia que renasce junto conosco. Grato por existir.

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