No dia em que eu tiver tempo, sentarei ao lado da minha avó

No dia em que eu tiver tempo, escreverei longos cartões nos aniversários dos amigos

No dia em que eu tiver tempo, escreverei longos cartões nos aniversários dos amigos

O título original dessa crônica de Ruth Manus, colunista do Estadão, é “O dia em que eu tiver tempo”. Trata, como o próprio nome indica, de nossa eterna falta de tempo. Foi só começar a ler, e me identifiquei imediatamente. Pois, como a autora, sofro da chamada síndrome da falta de tempo. Brigo com o tempo o tempo todo. Acho as 24 horas do dia pouco demais para realizar todas as tarefas que me proponho. Quero fazer tudo, mas no meu ritmo. Resultado: não consigo. E acabo sendo daquelas que sempre se queixa da falta de tempo, como nessa crônica.

Leia:

No dia em que eu tiver tempo, lerei Os Maias. Lerei não só Os Maias, mas Cem Anos de Solidão, Fausto e Antígona. Vou ler com um lápis, para anotar os trechos preferidos, pois quando eu tiver mais tempo, lerei outra vez para saber se ainda gosto tanto daqueles trechos destacados.

No dia em que eu tiver tempo, sentarei com calma ao lado da minha avó. Vou ouvir toda a sua história. Perguntarei sobre seu par de sapatos favorito, sobre seu pai e sobre os anos de doença do meu avô. Talvez eu a leve para viajar comigo. Um belo final de semana, só nós duas e as lembranças dela.

No dia em que eu tiver tempo, cuidarei muito bem de mim. Fio dental depois de cada refeição, corridas diárias, 20 minutos do sol das 8h30, peixe, quinoa, papaia e chá verde. Farei todos os exames que estão atrasados. Irei à dermato, ver essa pintinha no ombro.

No dia em que eu tiver tempo, escreverei um diário para a minha enteada. Contarei sobre o que senti quando ela segurou minha mão pela primeira vez, sobre as noites em que acordei com seus pesadelos e sobre as tantas vezes em que sentei na sua cama vazia com saudades. Entregarei quando ela fizer 16 anos e me achar um porre de madrasta.

No dia em que eu tiver tempo, escreverei longos cartões nos aniversários dos amigos, dizendo tudo o que gostaria de dizer. Não usarei mais o “de/para” das etiquetas. Não comprarei presentes apressados, nem escolherei garrafas de vinho da minha própria adega. Não adiarei mais os conselhos que estão presos na garganta desde 2002 e que eu sei que continuam sendo necessários.

No dia em que eu tiver tempo, ficarei em casa com meus pais, irmãos, sobrinhas, cunhados e meu amado, em vez de marcar um café de trabalho na Paulista, no fim do dia. Comeremos lasanha e assistiremos ao vídeo da viagem de 1993.

Eu espero por esse tempo. Tempo em que Eça, García Márquez, Goethe e Sófocles conviverão bem com minha agenda do escritório. Tempo em que minha avó permanecerá viva e lúcida, me aguardando. Tempo em que os dentes não terão caído, as calças 40 ainda estarão entrando e a pinta não terá se revelado câncer de pele. Tempo até o qual eu não esquecerei cada ano da minha enteada, que tinha 3, já fez 4, já fez 5, já fez 6. Tempo no qual meus amigos ainda não serão infelizes e, se forem, meus conselhos ainda servirão para reverter algo. Tempo este em que ainda estaremos todos juntos e no qual ainda não haverá mofo nas fitas VHS.

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2 comentários

  1. Tempo, o mal do século!!!
    Também tenho falta de tempo, mas tenho certeza, iremos nos arrepender.
    As crianças crescem e os pais se vão.
    Linda crônica.

  2. Tempo é dinheiro. Será mesmo? Acho que não. Seu valor está além disso!

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