O juiz que pode tudo: ele acredita que é Deus

João Carlos de Souza Correa, o juiz que se acha acima da lei

João Carlos de Souza Correa, juiz que se acha acima da lei

Que país é esse? Às vezes, a gente não acredita no que lê, como essa história do juiz João Carlos de Souza Correa que, parado numa blitz da lei seca no Rio de Janeiro sem carteira de habilitação e com o carro sem placa e sem documentos, processou e ganhou indenização na justiça de 5 mil reais da agente que o parou. A notícia ganhou a mídia e está em todo lugar, porque ninguém aceita que um juiz se comporte de maneira inominável como esse. E mais: que seja premiado por sua petulância, por ter burlado a lei. Inconformado, o jornalista Zuenir Ventura escreveu em O Globo a crônica “Juiz ou Deus, eis a questão”:

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Podia ser um episódio da série de humor non sense da turma do Porta dos Fundos, que costuma simular a vinda de Deus à Terra em carne e osso para resolver prosaicas questões do dia a dia. Ora é o apelo apaixonado da “outra”, que quer fazer “o Valter largar a esposa” para ficar com ela e Ele se irrita porque deixou de resolver o problema da fome na África para atender a esse chamado. Ora é o torcedor desesperado a quem Ele confessa sua impotência: “Não posso fazer nada pelo Botafogo”. Ou a dona de casa que quer uma solução divina para que o bolo que está fazendo não fique solado. Para quem reclama da Avenida Brasil depois das 7 da noite, Ele alega: “Não sou Moisés nem Eduardo Paes, não tenho ingerência no trânsito”. De cabelos compridos, longas barbas e bata branca, Ele aparece sempre mal-humorado em consequência da sobrecarga de trabalho, ou seja, dos insistentes pedidos terrenos de ajuda.

A agente Luciana Silva Tamburini vai ter que indenizar juiz em 5 mil reais

Agente Luciana Silva Tamburini vai ter que indenizar juiz em R$5 mil

O episódio a que me referi no começo aconteceu há três anos e agora teve uma solução inesperada. Nele, Deus não aparece, ou aparece disfarçado, mas é evocado e confundido com um juiz. Em 2011, um homem foi parado em uma blitz da Lei Seca na Zona Sul do Rio sem carteira de habilitação e com o carro sem placa e sem documentos. Infração grave. A agente da Operação Luciana Silva Tamburini puniu-o multando e ordenando o reboque do veículo. Houve reação do acusado, os dois se desentenderam e quando ele se identificou com o tradicional “sabe com quem está falando?”, revelando sua posição privilegiada, ela replicou dizendo que ele “era juiz, mas não Deus”, e que, portanto, devia se sujeitar às leis dos homens.

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A diferença estabelecida pela servidora do Detran foi recebida como ofensa. Provavelmente para provar o quanto ela estava errada na sua afirmação, já que ele de fato se achava pairando acima do bem e do mal, numa esfera superior, o juiz João Carlos de Souza Correa deu-lhe voz de prisão. Quer dizer: em vez de aceitar ser punido pela transgressão, julgou que ele, sim, é que podia punir quem ousou puni-lo, pois já fizera o mesmo com um guarda rodoviário que o abordara em 2009. Souza Correa conseguiu na Justiça o que queria. A sentença de um desembargador dando-lhe razão acaba de condenar a herege a pagar uma indenização de R$ 5 mil sob a acusação de que desacatara e debochara da autoridade. Além da multa de quase o dobro de seu salário, que está sendo coberta por uma solidária “vaquinha virtual” na internet e já arrecadou mais de R$ 10 mil, ela aprendeu a lição de que questionar a condição divina de certos humanos é um pecado que pode custar caro.

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Um comentário

  1. Arlete Navarro Seraphim

    Ola querida… eu vi sua reportagem na Fatima….como tantos outros brasileiros fiquei INDIGNADA!!!!!!!!!

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