Passei a virada do ano comigo mesma. E gostei muito

Há tempos, ando louca por água doce, por uma cachoeira

Há tempos, ando louca por água doce, por uma cachoeira

Elisa Santana –

Peguei um resfriado insuportável logo depois do Natal. Fiquei péssima. E como não costumo ficar resfriada facilmente, quando ele chega monta e campea. Fico uma semana pelejando. Desta vez não foi diferente. Comecei a sentir os sinais no domingo. Na segunda, apesar de ter trezentas coisas para fazer, só queria ficar quieta. Eu, fingindo que não sei de mim, comecei a planejar meu ano novo, juntamente com amigos, em lugarejo quieto e perto de cachoeira. Ando louca por água doce há tempos. Tudo estava certo. Desejosa de estar bem logo, comecei a me tratar caseiramente.

Gosto da medicina alternativa. Há 37 anos, vi em mim mesma a força dos remédios homeopatas, depois florais e antroposóficos, que tratam a pessoa como um todo, pois veem a doença como parte da cura. Aliás, aprendi que doença no corpo físico é só o sintoma de que o ser está adoecido. Evitei a alopatia. Busquei me tratar com própolis, chazinhos e alimentos mais quentes.

Na quarta, quando me levantei e me vi no espelho do banheiro, não sabia se era eu ou um urso panda que me olhava. Tinha uma olheira imensa e me sentia acabada, desenergizada. Entendi que não ia conseguir ir a lugar nenhum. Que a doença veio para me dizer, pare, fique quieta e cuide de você.

Na quinta, para minha surpresa, eu estava melhor. Não o suficiente para viajar. Uma amiga me chamou para uma reuniãozinha básica, de conversas amenas, brindes e saudação ao ano que ia e ao que vinha. Uma irmã havia me convidado para a festa na casa do filho. Fiquei grata pelos convites e achei bom que eu tivesse escolha. Mas não vou a lugar algum. Vou é ficar comigo. Preciso, pensei.

Resolvi sair no inicio da tarde e comprar coisas para fazer um prato leve à noite pra mim. Enquanto comprava, bateu a dúvida. Será que era isto que eu queria mesmo? Passagem de ano sozinha é tão solitária. No supermercado, passei ao lado de uma pequena garrafa de champanhe e fiquei olhando para ela, até que disse para mim mesma: menos querida.

Mais tarde me arrependeria, o champanhe teria sido bem-vindo. Cheguei em casa, deixei os ingredientes preparados para a minha pequena ceia “solita” e fui descansar, ler um pouco. Ganhei alguns livros no Natal, de assuntos completamente díspares e interessantes. Ora lia um, ora lia outro. Até que num certo momento parei e fiquei escutando o silêncio da rua e dos prédios, inclusive do meu. Pensei no réveillon do ano passado, quando também passei com um amigo e, apesar de termos dançado muito e não ter sido ruim, queria estar em outro lugar, com mais gente. Este ano, não, tornei a reafirmar, posso escolher e me escolho. Bom pensar assim.

Quando dei fé, a noite já andava longe. Levantei e comecei a preparar o que seria meu jantar: um arroz com lentilhas, bacalhau, cebolas, cúrcuma, louro e cheiro verde fresco, que seria regado com um bom azeite depois de pronto.

Pus em fogo brando e, enquanto cozinhava, fui tomar um bom banho. Passei meus óleos, me perfumei, vesti roupa nova, arrumei os cabelos, coloquei um pouco de maquiagem e fiquei linda para mim mesma. Enviei mensagem para os meus amigos, para pessoas queridas que na hora me lembrei, correndo o risco de me esquecer de alguém.

Depois, preparei a minha mesa com florzinha e tudo e me servi um arroz delicioso, com uma salada verde e azeite. Achei dos deuses. Aproveitei para agradecer o ano que passou, que para mim, particularmente, foi muito, muito proveitoso.

Isso tudo antes da meia noite. Não gastava esperar a virada. Pensei: este ano já acabou faz tempo. Foi um ano de muita loucura política, social e ecológica. Espero tenhamos aprendido alguma coisa. Assim, como espero que o ano novo seja bom para cada um de nós individualmente, Coletivamente, e também para o planeta, já que somos ele e ele somos nós.

Quando terminei o meu delicioso jantar, fui ver um filme – me encontrei com Mary Streep e Jack Nicholson. Quer melhor? Um pouco mais tarde, um amigo me ligou e tivemos uma agradável conversa. Lá pelas duas e meia, fui dormir muito satisfeita em minha companhia, pensando nos benefícios da solidão. Mesmo sozinha, não ando só. Acordei no outro dia me sentindo inteira, achando que o meu ano começou bem.

Elisa Santana, 58, é professora de Teatro na PUC-Minas, autora do livro de poesias
“Os Peixinhos do Meu Pano de Prato” e lançou em 2015 o seu primeiro CD, Soneto 88.

Compartilhe!

2 comentários

  1. Lindo relato. Passei alguns finais de ano sozinha, por estar em outras cidades e quer saber também? Adorei! Muitas pessoas confundem estar sozinha com solidão e não é assim. Tive tanta paz nestes momentos, eu os precisava e penso que cada pessoa devia aprender a ficar sozinha, de tempos em tempos.

    • É interessante que quando uma pessoa é sozinha por opção ela é mais detalhista em alguns aspectos de sua vida, de seu trabalho, e no seu dia-a-dia de viver. Também já fui assim. Era extremamente detalhista quando solteiro, após o casamento continuei só detalhista sem o extremo. Acho legal isso e se um dia tivesse que voltar a minha vida de sozinho, não haveria problemas em ser o que era anteriormente.

Deixe seu comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos marcados com asterisco são obrigatórios. *

*

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.