Profissionais mais velhos voltam a ser estagiários nas empresas

Fabíola Sereda de Almeida descobriu após os 40 anos que sua verdadeira vocação é dar aula; antes disso ela fez carreira no setor farmacêutico — Foto: Fábio Tito/G1

Maya Santana, 50emais

Com o envelhecimento da população, estudos mostram um aumento consistente do número de estagiários com mais de 40 anos de idade nas empresas. Um fenômeno relativamente novo que vai se ampliando na medida em que o Brasil entra no clube dos países cuja população envelhece mais rapidamente. Começar uma nova carreira aos 50/60 anos já não é novidade. Hoje, O brasileiro está vivendo mais. A nossa média de vida é de 76 anos.

Leia a reportagem de Marta Cavallini para o portal G1:

Fabíola Sereda de Almeida está recomeçando sua carreira aos 47 anos, depois de ser demitida após anos de trabalho na indústria farmacêutica. Ela o período desempregada para repensar seu futuro profissional e retomar um sonho antigo de trabalhar como pedagoga. Fabíola fez magistério quando adolescente e agora está cursando pedagogia. Na esperança de conseguir seu primeiro emprego, ela voltou a ser estagiária 30 anos depois.

Mesmo se sujeitando a ganhar menos que um salário mínimo de bolsa-auxílio, que nem se compara, segundo ela, à remuneração do antigo emprego, Fabíola diz que quem faz estágio mais velho precisa pensar a longo prazo, pois é uma chance de ser efetivado na empresa ou de acrescentar experiência ao currículo.

Assim como Fabíola, o perfil dos estagiários mais velhos é basicamente de pessoas que já têm uma profissão, mas sem formação superior, e que decidem fazer a graduação e tentar uma nova carreira, explica Luiz Gustavo Coppola, superintendente nacional de atendimento do Centro de Integração Empresa-Escola (Ciee).

Segundo ele, também é comum que mulheres acima de 40 anos que interromperam a carreira para cuidar dos filhos ou não tiveram tempo nem renda para estudar antes busquem uma graduação tardia e ingressem em programas de estágio na expectativa de conseguir depois um emprego na nova área.

“O perfil do estagiário acima de 40 anos é de quem quer uma segunda carreira. Ou descobre que tem um dom, mas por força da necessidade fez outro curso. É uma oportunidade que a pessoa se dá pra fazer uma nova faculdade”, diz. “O perfil não é de quem estava parado e voltou para o mercado na mesma ocupação.”

No caso de Fabíola, a crise foi o empurrãozinho para que ela buscasse a tão sonhada realização profissional, adiada porque a carreira acabou tomando outra direção.

“A vida dá voltas. Tive que ficar desempregada para descobrir que minha vida é o magistério. Eu nasci para isso, é o que eu quero de agora em diante”, diz.

Estágio 30 anos depois
Fabíola conta que fez estágio no magistério, quando tinha 17 anos, mas é difícil comparar a experiência anterior com a atual. “O olhar que eu tenho agora é com muito mais maturidade, com mais objetivo, sabendo que é aquilo mesmo que eu quero”, afirma.

A estudante de pedagogia é a mais velha entre os estagiários da escola e, por isso, sua postura é diferente dos demais. “É um pouco desgastante porque os mais jovens não sabem bem o que querem e levam mais na brincadeira. Quando se é mais velha leva-se as coisas com mais seriedade, mas de um modo geral é interessante porque um aprende com o outro”, explica.

Seu trabalho é auxiliar as professoras, distribuindo as atividades e acompanhando o trabalho dos alunos. Para ela, sua experiência ajuda muito para lidar com as crianças a partir de 5 anos de idade. “É preciso paciência, saber lidar, ser muito ponderada”.

A futura pedagoga considera a bolsa-auxílio que recebe mensalmente muito baixa por trabalhar como auxiliar de classe. “Poderiam rever isso, mas encaro como uma fase para adquirir experiência”, afirma.

Fabíola se forma em julho e tem o desejo de ser efetivada na escola. “A educação é minha paixão, era uma coisa que eu deveria ter feito aos meus 19 anos. Às vezes a gente tem que dar uma volta para depois voltar ao princípio. Mas tudo que eu aprendi antes só soma hoje”, conclui.

Laurinda Mendes em seu estágio numa faculdade em São Paulo; mesmo aos 55 anos, ela diz que tem muito a aprender — Foto: Marcelo Brandt/G

Para Laurinda Mendes da Costa Hora, de 55 anos, o primeiro estágio significa o retorno ao mercado de trabalho após uma pausa de quase 4 anos. Formada em administração de empresas há 27 anos, ela foi demitida em 2013, depois de trabalhar por 23 anos na área corporativa de uma grande varejista. Naquele ano, ela se aposentou.

Aproveitou a calmaria para cuidar de sua vida pessoal e dos filhos. Mas a necessidade de voltar a estudar e se atualizar falou mais alto e ingressou no curso técnico em administração no ano passado. Alguns meses depois, começou a fazer estágio em uma faculdade de São Paulo. Ambos terminam em julho.

Segundo ela, a graduação lhe deu a visão do todo, mas o curso técnico traz um nível de detalhamento maior de cada segmento, como recursos humanos, logística, finanças e contabilidade.

Laurinda conta que no começo ficou receosa de ser a estagiária mais velha, mas a acolhida foi ótima. “Me sinto como uma mãe, dou conselho, é uma troca de carinho”, diz.

No processo seletivo ela teve de concorrer com jovens de 17 e 20 anos. E “tirou a ferrugem” depois de anos sem fazer uma entrevista de emprego. “Meu currículo foi elogiado pela experiência e graduação. No dia seguinte me ligaram para começar na mesma semana”, diz.

Seu trabalho atual é no departamento de finanças, atendendo alunos presencialmente e por telefone, cuidando das matrículas e dos pagamentos. “Está sendo muito bom para o meu currículo. Mesmo aos 55 anos a gente tem muito o que aprender. Estou com muita disposição para trabalhar”, diz.

Laurinda reconhece que ser remunerada com bolsa-auxílio – pouco menos que um salário mínimo, que atualmente é de R$ 954 – na sua idade é um desafio e, no seu caso, só é possível porque ela tem uma aposentadoria. Seu benefício é cerca de 3,5 salários mínimos (ao redor de R$ 3,3 mil). Em comparação com o antigo emprego, pelos seus cálculos, o valor da bolsa-auxílio é cinco vezes menor.

“Acho pouco, só consigo encarar esse valor porque tenho minha aposentadoria. Mas vejo o estágio como oportunidade e aprendizado, que servirá para a minha volta ao mercado de trabalho, na área financeira, em um departamento que para mim é novidade”, diz.

Segundo ela, a faculdade acenou com a possibilidade de efetivá-la, pois estão precisando de funcionários. Laurinda pretende ainda fazer pós-graduação em contabilidade ou finanças. Clique aqui para ler mais.

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