Apelo comovente para tirar o pai do desemprego

A autora do texto, Carol Furtado, com o pai, Paulo, e a mãe

A autora do texto, Carol Furtado, com o pai, Paulo, e a mãe, Fátima

Inconformada com o desemprego do pai, o especialista em desenho técnico de arquitetura e topografia Paulo Furtado, de 61 anos, a filha, Carol, que é designer, encontrou uma forma criativa de mostrar que o pai, desempregado há nove meses, é competente e merece um bom emprego: criou uma página no facebook, relacionando de maneira bem peculiar os predicados de Paulo como profissional.

É comovente. Leia:

Com mais de 30 anos de experiência em construção civil, geologia e geotecnia, ao longo dos quais desenvolveu projetos executivos para empresas como Vale, Samarco, MRN, V&M Mineração e Cemig, aos 61 anos, meu pai está desempregado.

Eu amo muito o meu pai, mas preciso confessar que já brigamos um bocado, nos últimos 29 anos. Minha mãe, coitada, uma das mulheres mais doces e delicadas que conheço, incapaz de falar acima de 60 decibéis, ficava sem chão com os nossos conflitos de 120. Mas a verdade é que ela sempre preferiu a bossa nova, e eu e meu pai, o Rock and Roll. Nesse ponto, somos mais que iguais.

_ Engole o choro, Carolina.

Filha diz que pai é tímido

Filha diz que pai é tímido

Minhas brigas com meu pai começaram logo cedo. Aos 3 anos, eu me lembro que tinha medo do marido de uma tia minha. Ele usava uns óculos enormes, esverdeados, com aquelas lentes supergrossas, que deixam o olho bisonho. É lógico que ia ter medo de um sujeito assim, ué. Qualquer criança ia. Então, eu fazia de tudo pra não cumprimentá-lo, mas quem disse que o meu pai deixava? Por volta dos meus 6 anos, eu ainda tinha medo de algumas pessoas (geralmente aquelas com acessórios, roupas ou cabelos fora do padrão; palhaços se enquadravam, nisso, inclusive), mas eu me recordo que, nessa época, meu pai me deixou de castigo por eu não ter cumprimentado uma pessoa. Ele me mandou “engolir o choro” e disse que eu precisava entender, de uma forma ou de outra, que eu podia até não gostar de algumas pessoas, mas que eu devia a todas elas o meu respeito. Hoje, já grande, eu não engulo o choro quando eu não gosto de alguém, é verdade, mas eu engulo alguns sapos, vez ou outra, porque a máxima do respeito fez sentido pra mim. Preciso dar meu braço a torcer.

_ A revolução das pranchetas e o fim do império lúdico.

Por volta de 1993, quando compramos nosso primeiro computador, minha vida se tornou um inferno. Eu tinha milhares de jogos em discos flexíveis de 5 1/4 polegadas, mas não conseguia usufruir de nenhum. Por quê? Por causa do meu pai, é claro. Tudo culpa dele e do bendito Autocad. “A revolução das pranchetas”, nas palavras dele. Além de ocupar mais de metade da memória do nosso 486, ele ocupava 80% do tempo do meu pai, que, de quebra, ocupava 50% do tempo que eu tinha pra me destinar aos meus discos flexíveis de 5 1/4 polegadas. Eu era muito mais feliz quando o meu pai usava prancheta, papel vegetal e caneta nanquim. Ah, mas era. Tempos que não voltam.

_ AC/DC

Até os meus 22 anos, meu pai não tinha carteira de motorista. Foi eu tirar a minha, comprar um carro e adivinhe o que aconteceu? Pimba, ele cis-mou de tirar carteira, também. Antes, eu tinha um carro só pra mim, e, depois, não tinha, é óbvio. Meu pai passou a vida inteira sem dirigir e, justo nessa época, aos 55 anos –  repito, 55 anos – ele tinha que fazer isso? Mas meu pai sempre foi assim, quando cismava com alguma coisa, não tinha quem o convencesse do contrário. Chamo essa fase da minha vida de AC/DC. Isto: Antes da Carteira / Depois da Carteira. Se você leu “ei-ci-di-ci” e já pensou na banda de rock, posso te dizer que seu raciocínio não está de todo errado, considerando a minha “Highway to hell” naqueles anos. Clique aqui para ler mais.

_ Um sono de liberdade.

Faz uns 3 anos que resolvi morar sozinha. Basicamente, por causa do meu pai. Bem, meu pai aprendeu com o meu avô a acordar muito (mas muito) cedo. A minha vida inteira tive que escutar: “Chegar no horário não é qualidade. É obrigação, Carolina.”. Então, basicamente, esta era minha via crucis matinal: 5:30, o despertador de corda tocava; 5:45, meu pai ligava o rádio na Itatiaia; 6:00, meu pai lavava as vasilhas que usava pra fazer café; 6:30, meu pai dava descarga; 6:45, meu pai tomava banho; 7:00, meu pai abria a porta do meu quarto, pra me dar um beijo de despedida e falar que já tava quase na hora de acordar (como se eu não estivesse acordada desde as 5:45, mas tudo bem); 7:15, meu pai trancava a porta de casa e conferia a maçaneta umas três vezes, pra garantir que a porta estava mesmo fechada (nesse ponto, não posso dizer nada contra o meu pai, porque faço o mesmo). Em suma, posso dizer que meu pai nunca chegava atrasado no trabalho, o que não se aplicava a mim, que voltava a dormir a partir das 7:15, pra acordar desesperada às 08:30, lembrando que tinha reunião de pauta às 09:00. Clique aqui para ler mais.

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Um comentário

  1. Gostei demais da proposta. Acho que vou fazer uma campanha também para ver se desperto os sentidos de algum empregador de peso. Também tenho 61 e trabalhei 38,5 anos numa empresa, mas queria mais alguma chance, pois tenho ainda muitos planos e sonhos a realizar. Será que alguém se habilita??????????

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