Lya Luft: Os oitenta

Ela fez 80 anos em setembro e escreveu esta crônica para o Zero Hora

Tempos atrás, crianças da casa falavam entre si, com orgulho, de quantos anos fariam em dois anos, ou três: 15, 19. Comentei com a maior naturalidade que em três anos eu faria 80. Silêncio meio penoso, depois: “Pô, vó, 80 é pesado!”. Ri muito: a ideia não tinha me ocorrido, acho que a passagem do tempo é apenas natural, ser criança, jovem, maduro, velho – apesar dos preconceitos, que dependem muito mais do sentimento que se tem. Eu, confesso, acho esse número no mínimo engraçado. “O que tem de graça em fazer 80 anos?”, me pergunta uma amiga meio irritada.

Mas é natural mesmo, respondo. A graça, para mim, está em eu, esta aqui, ter tantas décadas de vida e ainda ser, por dentro, a mesma de antigamente, assombrada com tudo, querendo entender o mundo – apenas agora sabendo que ele não é para ser entendido. É para ser vivido, sofrido, apreciado, contemplado. Pois é prodigioso em tudo, mesmo na miséria, na pobreza, na violência, na lua cheia, no mar resmungão, no calor dos tantos afetos que sustentam a gente ainda ferozmente em pé apesar de mais lenta no andar, e da bengala amiga. Das perdas trágicas que sofremos. Ou alguém quereria ficar cristalizado nos 20, sem mais experiências de vida, novas e ruins, uma existência estagnada?

Enfim, eu acho, sim, certa graça: neste sábado, meus leitores, a autora desta coluna completa 80 anos de idade. Talvez devido à imagem que em geral se tem dessa altura da vida: encarquilhados, tortinhos, indefesos, dentes postiços, quase alimentados com colher e mingau. Mas: muitos jovens ficam entrevados, doentes, sofridos, deprimidos – muitos velhos participam da vida, nada alienados diante das belezas e dos horrores em torno. Não precisamos ser lindos ou atléticos, o que decididamente nunca fui, mas gostar de viver.

Mesmo quando a sombra da morte nos derrubou com força, de repente, aqui e ali, um galhinho verde muito claro desabrocha na galharia maltratada. Saímos dessa UTI em que a dor nos coloca, espiamos o corredor, olhamos pelas janelas para as árvores lá fora: o sol, e as pessoas, os carros, o vento, uma aconchegante chuva, a vida ainda existe. E, se estou nela, não quero me arrastar, mas caminhar.

Começo a recuperar a capacidade de rir, sobretudo das minhas próprias bobagens, ou da graça e dos encantos dessa juventude animada que aparece aqui, sangue do meu sangue (expressão esquisita), filhos, netos, netas. E as amizades de tanto tempo. O parceiro com sua parceria. Os livros que escrevi, estou escrevendo, e os que leio sem parar porque não perdi a curiosidade pelas tramas e pelos dramas que envolvem o ser humano, comovente ou assustador. Sem esquecer os leitores amados, alguns me seguindo há mais tempo do que eu teria imaginado.

Depois de reunir na noite de sexta um grupo de amigas que se intitulam Gurias da Lya – e nem preciso convidar, porque se aprumam e me enchem de afeto –, neste sábado, almoço da família aqui em casa, com mais alegria porque estamos todos juntos. Pois quem se foi ainda vive, onde quer que esteja, e continua em nós, que resistimos, abraçados.

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24 comentários

  1. Gostei muito da sua crônica sobre comemorar 80 anos! Linda reflexão! É exatamente assim! Vemos pessoas aos 90 lúcidas, encantadas pela vida, apesar das dificuldades, ao mesmo tempo em que vemos pessoas ainda jovens de 40 anos, doentes, deprimidas, desencantadas, querendo desistir da vida…parabéns, Lya, continue assim, ativa, desencanada, com sua literatura que é um deleite, um brinde à vida!

  2. Amo Lya Luft! Uma mulher fantástica! Inteligente, lúcida e talentosa!

  3. Hoje comemorei meus 70 Lya. Vou chegar lá. Aos seus 80 e lá vai mais .

  4. Waldelourdes brandao

    Parabens Lya lufty vc é inspiradora maravilhosa

  5. Amei!!! Parabéns Lya!! Você é fantástica!!

  6. Adorei ler cada palavrinha❤em Setembro farei 60 e me sinto uma menina….Parabéns

  7. Fiz 70 anos em setembro com muita celebração. È muito bom poder ler seu depoimento e como você não quero me arrastar mas viver. apesar do que possa nos doer. Parabéns

  8. Parabéns Lya você é fantástica e suas crônicas são um deleite!! Um 2019 cheio de saúde, amor, amizades e muitas energias boas! Abs

  9. Animadora crônica!! É eu nos meus 56 anos vivendo de ansiedade e depressão…comi queria ter esse gosto pro vida…desânimo é meu sobrenone!!!

  10. Adoro seus livros, nao pare nunca.

  11. Estou quase chegando lá, também com muita vontade de viver, aprender, desfrutar de tudo que a vida nos oferece, apesar da dor no joelho … rsrsrs Parabéns Lya Luft !!!!!!!

  12. PARABÉNS Lya por continuar vendo a vida com tanta clareza e VONTADE de VIVER.

  13. Parabéns, vc é um exemplo de mulher. Fica com Deus. Bj.

  14. Divanilda dos Santos Nunes

    Parabéns, querida Lya Lft , prossiga pois seus textos são maravilhosos e servem de estímulo para todos seus seguidores!
    Beijinhos no seu coração!
    E felicidades , minha querida!

  15. Perfeita a expressão: “…não quero me arrastar, quero caminhar…”, e eu completo: “…quero caminhar nem que seja de bengala, de andador, de cadeira de rodas, numa cama pela tela do celular, .. “. Peço sempre a Deus que me dê ânimo, força, alegria em qualquer circunstância da vida, porque se o psicológico está bem ele maquia o que não está e você segue caminhando e não se arrastando.

  16. Já cheguei aos 71! E como é bom viver, acompanhando os filhos, vendo os netos chegarem a adolescência, alegre, feliz, mesmo que a vida tenha me dado boas rasteiras! De vez em quando um papinho de pé de ouvido com Deus, onde peço mais tempo pra que possa vê os netos entrando na faculdade e, se não for pedir demais, que eu os veja sair delas! Vou levando, quem sabe não chego lá? Amo viver!!!

  17. Amo você, seus livros,suas palavras?sua força!
    Procuro, tento me espelhar em você, com meus 70!
    Te admiro muito!
    Bjinhos
    Lucia

  18. Quando completei 50, dois anos atrás, me senti um ancião…

  19. Adorei a crônica penso e vivo cada dia que tenho oportunidade em minha vida!!! Gosto muito!!

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