Percebi que a velhice é um grande encontro com a gente mesma

Trabalhar em um residencial me trouxe uma visão nova, um novo ângulo, que muitas vezes é um mais sofrido, mais doído

Maya Santana, 50emais

Uma boa reflexão de Érica Barros Malta, Supervisora de Enfermagem do Lar Sant’Ana, em São Paulo, publicada no Portal do Envelhecimento. Por ser leitura que recomendo, estou postando no 50emais. É um rico relato de uma mulher que, lidando há anos com a velhice alheia, pois trabalha numa instituição para idosos, se viu sacudida pela consciência repentina do seu próprio envelhecimento. “tenho reconhecido nos velhos dos quais cuido que a velhice é um grande encontro consigo mesmo, e só participa deste encontro quem está aberto a colher verdades doces e amargas” – diz a autora nesse texto que você vai gostar de ler.

Leia:

Há sete anos me vi entrando em uma realidade, na qual, de maneira muito natural, já estava inserida, mas que nunca tinha parado para pensar ou até mesmo analisar – a velhice e o processo de envelhecimento. Tem sido bastante custoso pensar no meu processo de envelhecimento depois que comecei a trabalhar em um residencial para idosos, uma vez que o processo de envelhecimento sempre foi algo natural em minha vida, que estava presente nos velhos da família, em amigos, conhecidos e que ao meu ver, sempre foi um processo normal, que faz parte da vida.

No meu viver, pude reconhecer que o envelhecer é uma mudança muito grande para qualquer indivíduo. Algumas vezes vivida com rupturas bruscas como perdas cognitivas ou físicas, mas em outras vezes o envelhecimento veio como continuidade, sem grandes rompimentos, mas como uma simples sucessão de dias, meses, anos. O que eu via, era uma rotina de vida, tudo sempre igual, nada muito diferente, mas sempre com uma valorização por parte da família muito grande, um reconhecimento da bagagem de vida, da sabedoria ganha nestes longos anos de vida.

Trabalhar em um residencial me trouxe uma visão nova, um novo ângulo, que muitas vezes é um mais sofrido, mais doído, que pode estar relacionado ao momento que a sociedade passa hoje de não conseguir mais cuidar de seus velhos em casa, seja porque ele tem demandas que muitas vezes são patológicas, seja por requererem cuidados que uma família não está, ou não se sente apta à prestar, ou simplesmente, não quer estar junto nessa vivência.

E então chega o momento da tomada de decisão: institucionalizar o velho. De uma maneira geral, essa decisão pode ser muito benéfica, tranquila, ou muito sofrida para a pessoa que passa por isso. Se para um adulto jovem os processos de mudança já não são fáceis, para o velho pode ser ainda mais difícil por conta do enraizamento, dos hábitos, dos costumes que se perdem de um dia para outro, sem levar em conta suas histórias, momentos ou tradições.

Ele se vê em uma casa nova, mas que não é a dele, sem sua privacidade, afinal, outras pessoas também moram lá, isso sem falar das equipes, das visitas, do ritmo próprio da instituição. Nisso, o que era próprio, pessoal, acaba se perdendo. Novas rotinas e ritmos se estabelecem e surge então um novo momento da vida deste velho. Acompanhar estes processos de moradia em um residencial, sejam eles por causas patológicas ou não, tornou-se para mim muitas vezes doído, sofrido e muitas outras vezes riquíssimo, e requer uma delicadeza de olhar que não é fácil, e não é ensinada nos bancos escolares.

Mas voltando aos meus desejos, lembrei-me que adoro comer, beber, viajar, viver, então meus filhos e cuidadores não me privem destas alegrias, e me desculpem, mas eu não acredito que elas possam abreviar meus dias de existência, ou melhor de vida. E por falar em existência, a mim não basta existir, tenho que viver, e viver significa aproveitar (a vida) no que ela tem de melhor, então, nada de me encher de tubos e aparelhos que tentarão manter meu corpo funcionando, sem que eu possa sair de uma cama.

A morte nunca foi um problema para mim, eu a vejo como parte desta vida, e confesso que tenho muita curiosidade para conhecê-la (no momento certo claro). Me lembro de ler certa vez uma definição que muito me toca sobre a morte. Dizia que se a morte for um encontro com os que já se foram será uma grande alegria, mas se for como uma noite de sono da qual não nos lembramos de nada, também será bom. Voltando para o envelhecimento, tenho reconhecido nos velhos dos quais cuido que a velhice é um grande encontro consigo mesmo, e só participa deste encontro quem está aberto a colher verdades doces e amargas.

Quero acolher a velhice em meu dia a dia de maneira natural, como quem acolhe os acontecimentos de cada dia, que eu possa colher o meu envelhecimento cotidiano como quem colhe frutos de uma árvore, e que depois de colhidos eu os possa saborear e agradecer por eles. Que eu possa viver com liberdade a experiência que estes anos me trouxerem, já que a jovialidade não é rica em experiência como afirma Pinsky (2003, p.7): “Se o jovem tem a pele mais lisa e mais vigor, perde em experiência e em tolerância, e mesmo o mito da criatividade exclusivamente juvenil, pode ser questionado por homens que fizeram suas descobertas ou criaram suas obras já na velhice, como Goethe, Leonardo da Vinci e mesmo Albert Sabin”.

Para mim a velhice ou a palavra velho não vem com o sentido de descarte, algo que não serve mais, ou até mesmo de algo estereotipado e preconceituoso como vemos em muitas pesquisas científicas que tentam definir este processo.

Neri (1991), assinala que “o que há em relação ao que significa ser velho no Brasil são opiniões. E muitas. De leigos e profissionais. Se quem responde à questão tiver uma pitada de informação ou de sofisticação intelectual, poderá repetir Simone de Beauvoir (1970), e dizer que o velho brasileiro vive uma situação de escândalo. Poderá apoiar-se no discurso sociológico para indicar a situação de marginalidade a que o sistema econômico lança seus membros não produtivos; […] Apoiado num discurso antropológico, nosso informante um pouco mais sofisticado poderá referir-se aos efeitos da urbanização e da industrialização sobre o status do velho, lembrando que em sociedades primitivas, ele merece mais consideração do que nas que viveram ou vivem o processo de modernização (p. 32. Grifos da autora).

Penso em uma definição para velho, mais como a de continuidade, um processo natural de vida e que se depender dos meus desejos, será um momento de frutificar, amadurecer, saciar a outros e de poda, tudo isso para gerar vida em quem estiver próximo, e a quem se dispuser a estar e ser comigo em minha velhice.

Referências
MESSY, J. A pessoa idosa não existe. Uma abordagem psicanalítica da velhice. Tradução: José Souza e Mello Wernek. São Paulo: ALEPH, 1999.
NERI, A.L. Envelhecer num país de jovens. Significados de velho e velhice segundo brasileiros não idosos. Campinas: Editora da UNICAMP, 1991.
PINSKI, J. (Org.).12 faces do preconceito. São Paulo: Contexto, 2011.

(*) Érica Barros Malta – Graduada em Enfermagem pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo; Pós-Graduada em Gerenciamento em Enfermagem pelo Centro Universitário São Camilo; Aperfeiçoamento em Gerenciamento e Liderança na Enfermagem pelo Fator RH; Com Experiência profissional na Associação da Medula Óssea AMEO, Hospital Santa Isabel clínica médica cirúrgica. Enfermeira Responsável Técnica no Lar Sant’Ana (Alto de Pinheiros) desde 2013. Supervisora de Enfermagem do Lar Sant’Ana (Alto de Pinheiros e Butantã) desde 2017. Texto escrito no curso de extensão Fragilidades na Velhice: gerontologia social e atendimento, ministrado pela PUC-SP no segundo semestre de 2018. E-mail: erica.bbarros@gmail.com

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11 comentários

  1. Jeronimo Serapiao Tavares

    Lamentavelmente a sociedade brasileira ainda não aprendeu a lidar com o velho e o torna invisível ignorando as estatísticas e o próprio destino eu, aos 77 anos sinto-me previllegiado !

  2. Maria das Graças S.Cezar Cade.

    Estou já completando 70 anos e me peguei pensando: como na minha cabeça acho que estou jovem. Isto seria positivo? Ou não? Vendo este texto fico feliz, pois o corpo esta ficando enrugado, mas a mente não.

  3. Sempre estão maquiando a triste velhice!
    A velhice é indigna, é o princípio do fim e sabe-se lá de que jeito as coisas vão caminhar…
    São pouquíssimas, mas pouquíssimas mesmo, as pessoas que envelhecem bem, ou seja, com saúde, dinheiro, família presente, passeios, etc. Sorte deles!

  4. Meu Deus! Sou enfermeira, que texto lindo! Que reflexão linda. Amo ter contrato com idosos.
    Meu é Rosimeyre LIRA

  5. Aos 78 sinto-me jovem o suficiente para executar todas as tarefas que sempre me couberam.
    Casada por amor aos 19 ,aos 26 mãe de dois casais de rebentos encantadores ,hoje país e mães cujos filhos são a razão do meu alegre viver.
    Qdo o caçula foi á escolinha , matriculei-me para fazer meu curso universitário em EDUCAÇÃO e posterior em ADMINISTRAÇÃO DE EMPRESAS.
    Nunca mais parei de estudar , pós, e mais pós ao tempo em que realizei outros sonhos como de trabalhar naquilo que mais gosto de fazer.Mudei de cidades e de empregos algumas vezes ,sempre em busca do melhor pra todos nos.
    Não jogo em loterias ,pois me considero premiada em muitas delas várias vezes.
    Quem leu até aqui pode estar pensando que estou mentindo ou querendo ser diferente .Nada disto.
    Minha adaptação ao casamento não foi fácil.Alem de muito jovem , ao casar-me fomos morar em São Paulo , capital, longe das minhas origens à beira mar do Porto da Barra, em Salvador, onde a luminosidade intensa faz dessa cidade muito agradável, clima estável , amizades de infância que foram deixadas para trás bem como familiares.Mais ,ainda, a Caçulinha da família.
    Não fosse o verdadeiro amor que nos unia e amalgamava nossas vidas , a fé num DEUS amoroso que nos acompanha e nos conhece sem pedir explicações ,tudo acima relatado poderia ter sido diferente.
    A partir de 2002 meu amado ,após 43 de união e casamento feliz , mudou-se para mais perto do PAI, onde tenho certeza está desfrutando de tudo a que fez e faz jús. Nosso reencontro ocorrerá ,sem dúvida, a qualquer momento em que formos convidada a responder ao chamado do PAI.
    O momento é só gratidão por tudo que fomos,somos e temos !
    Louvemos ao SENHOR !

  6. Petronilha Sandra de Andrade.

    Mto obrigada por tão lindos textos.
    Nos encorajam a segiur nossas vidas, tenho 69 anos, com uma cuidadora mto carinhosa, graças a Deus.
    Acamada desde 2017, ao ser acometida da doença de Paget, esta hereditaria, minha mãe tinha, e necessario se faz que os filhos façam exames anuaia, pra terem certeza do não acometimento..
    Preciso fazer uma protese de quadril bilateral.
    Primeiro lado direito mais comprometido, após 6 meses o lado esquerdo.
    As dores são intensas com todas as medicações.
    Ando um pouco na cadeira de rodas, mto incomodo, porque me doi mto o cocix.
    Me esforço ao maximo, sou bem resistente as dores fisicas.
    Esta cirurgia já era pra ter sido realizada.
    Em janeiro deste ano, sinto falta de ar e dores no peito, me encaminho pro hospittal, exames de sangue e raio x do torax, não pude nem voltar em casa, forte anemia e pneumonia por bronco aspiração, aflita ao alimentar porque passei a vida acostumada a me alimentar rapido, pra dar conta dos filhos, casa, esposo e trabalhando fora.
    Agora preciso aprender a fazer diferente.
    Nunca é tarde.
    E assim amigos lhes contei um pouco do meu envelhecimento.
    Com tudo isso dou boas gargalhadas e sou de bem com a vida, graças a Deus.
    Mto obrigada por escutarem meu desabafo.
    Desejo a todoa um feliz envelhecer.

  7. Também sou Enfermeira, amo minha profissão, mas hoje com 70 anos já estou aposentada, mas se puder, em outra encarnação quero ser Enfermeira novamente. Só sinto que o envelhecimento chegou prá mim, quando quero fazer alguns movimentos corriqueiros e o corpo não obedece, no mais sou muito feliz, curto meus filhos, família e amigos. Parabéns pelo seu depoimento!

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