Mulheres em alta: até o Prêmio Nobel de Literatura 2020 é delas

Louise Grück, 77, Nobel de Literatura, ainda não é traduzida no Brasil

Parece que as mulheres estão, finalmente, ganhando um lugar ao sol. É o que se deduz ouvindo o noticiário: pela primeira vez em 25 anos de história da Organização Mundial do Comércio(OMC) uma mulher vaichefiar a importante instituição, sediada em Genebra, na Suiça . A escolha final, no inicio de novembro, será entre Ngozi Okonjo-Iweala, nigeriana, e Yoo Myung-hee, sul-coreana.

A astrofísica americana Andrea Mia Ghez figura entre os ganhadores do Prêmio Nobel de Física/2020. O Nobel de Química deste ano foi dividido entre a  francesa Emmanuelle Charpentier e a americana Jennifer Doudna. E agora, para grande surpresa, é também uma mulher a ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura: a poeta americana Louise Glück.

Nunca ouvi falar delas. Nem mesmo de Louise Glück, que recebe esse prêmio ( um milhão e 100 mil dólares) aos 77 anos de vida. Eu que gosto tanto de ler. Embora tenha papel tão importante na literatura internacional, ela nunca foi traduzida no Brasil. Louise  a primeira mulher poeta a ganhar o Nobel desde a polonesa Wislawa Szymborska, em 1996.

Leia a reportagem sobre Louise Grück, escrita por Ruan de Sousa Gabriel para O Globo:

O Prêmio Nobel de Literatura 2020 foi para a poeta americana Louise Glück por sua “inconfundível voz poética que, com austera beleza, faz da existência individual universal”. O anúncio foi feito às 8h (horário de Brasília) em Estocolmo, na Suécia. Glück estreou na literatura em 1968 e é autora 12 coletâneas de poemas e de alguns volumes de ensaios sobre o fazer poético.

O presidente do Comitê do Nobel, Anders Olsson, disse que falou ao telefone com Glück pouco antes do anúncio, recebido pela poeta com “surpresa”. Ele afirmou ainda que, este ano, por conta da pandemia de Covid-19, a cerimônia de entrega do Nobel, marcada todos os anos para dezembro, não ocorrerá presencialmente em Estocolmo.

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Aos 77 anos, Glück é professora da Universidade Yale, nos Estados Unidos. Ao longo da carreira, já recebeu prêmios importantes, como o Pulitzer e o National Book Award. Em 2015, ela recebeu, do presidente americano Barack Obama, a Medalha Nacional de Artes e Humanidades. Conhecida por seus versos límpidos e autobiográficos, ela com frequência recorre à mitologia greco-romana, à natureza e à história para refletir sobre o cotidiano e a vida moderna. A poeta é a décima-sexta mulher a levar o Nobel de Literatura. A obra de Glück ainda não está traduzida no Brasil.

Segundo Olsson, “a infância e vida familiar, a relação próxima com os pais e os irmãos” são “temáticas centrais” da obra de Glück, cujos versos confrontam duramente as “ilusões do eu”. Embora jamais tenha negado a influência da própria biografia na composição de sua obra, a americana não é uma “poeta confessional”. “Glück aspira ao universal”, afirmou Olsson, ressaltando ainda que ela com frequência recorre às vozes de personagens da literatura clássica como Dido, Perséfone, Eurídice e até a Beatriz, da “Divina Comédia”, de Dante.

Louise Glück recebeu, em 2016, a Medalha de Nacional de Humanidades dos EUA, entregue pelo presidente Barack Obama Foto: SAUL LOEB / AFP

Entre seus principais livros estão “The Triumph of Achilles” (O triunfo de Aquiles), de 1985, e “Ararat” (referência ao Monte Ararat onde, segundo a Bíblia, a arca de Noé atracou depois do dilúvio). Em “Ararat”, Glück se esforçou para encontrar uma dicção mais prosaica, sem adornos e que fluisse naturalmente. Em seus ensaios, ela se debruçou sobre poetas T.S. Eliot, John Keats e George Oppen.

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Nascida em Long Island, no estado de Nova York, Glück estudou na Universidade Columbia e já lecionou em diversas instituições de ensino superior nos EUA. Numa entrevista à revista literária “Poets & Writers Magazine”, ela afirmou que poetas precisam viver a vida para poder produzir algo de original e que “reprimir impulsos passionais em favor da arte” é um “erro terrível”.

Quando recebeu a ligação do funcionário da Academia Sueca, Glück não soube muito bem o que dizer e reclamou que era cedo de mais para perguntas difíceis: “Meu primeiro pensamento foi: não vou ter mais nenhum amigo, porque todos os meus amigos são escritores. Então eu pensei: não, isso não vai acontecer. Não sei o que isso significa, não sei se… Quero dizer, é uma grande honra. Há laureados que eu não admiro. Depois eu penso naqueles que eu admiro. Alguns deles muito recentes. Eu penso de maneira prática. Pensei: bem, posso comprar uma casa. Mas o que mais me preocupa é preservar o meu dia a dia com as pessoas que eu amo”. A gravação do telefonema foi compartilhada no Twitter do Prêmio Nobel.

Depois da tempestade

Louise Glück sucede à polonesa Olga Tokarczuk e ao austríaco Peter Handke, premiados no ano passado. Tokarczuk venceu o prêmio por sua “imaginação narrativa” e “paixão enciclopédica” que “representa o cruzamento de fronteiras como formas de vida”, afirmou a Academia Sueca. Já Handke levou o Nobel pela “engenhosidade linguística” com que “explorou as peripécias e especificidades da experiência humana”. No ano passado foram anunciados dois vencedores porque o Nobel de 2018 foi adiado depois que escândalos sexuais e vazamentos abalaram a reputação da Academia Sueca.

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Em 2019, as polêmicas continuaram. O Nobel a Handke foi duramente criticado porque o escritor apoiou fervorosamente e chegou a ser condecorado por Slobodan Milošević, ditador sérvio que massacrou croatas e bósnios muçulmanos durante a guerra que se seguiu à desintegração da Iugoslávia nos anos 1990 e morreu em 2006, numa prisão da ONU, acusado de genocídio. Handke também discursou no velório de Milošević, que era conhecido como “o carniceiro dos Bálcãs”. A associação Mães de Srebrenica, criada por mais de vítimas de Milošević, chegou a pedir que a Academia Sueca se retratasse.PUBLICIDADE

Depois de alguns anos de polêmica, o Nobel para Glück representa uma escolha segura dos suecos e uma tentativa de pacificação. Até quarta-feira (7), três mulheres lideravam as apostas para o Nobel de Literatura de 2020. Glück não estava entre elas. O site britânico Nicer Odds, que reúne informações de diversas casas de aposta, apontava como favoritas a franco-caribenha Maryse Condé, a russa Liudmila Ulítskaia e a canadense Margaret Atwood.

Completavam a lista o queniano Ngũgĩ wa Thiong’o e, é claro… o japonês Haruki Murakami. A canadense Anne Carson estava em sexto lugar no Nicer Odds, mas em primeiro no site da Ladbrokes, a principal rede de casas de aposta do Reino Unido.

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Dois dos poemas da ganhadora do Nobel de Literatura de 2020:

“A íris selvagem”, Louise Glück

“No final do meu sofrimento
havia uma saída.

Me ouça bem: aquilo que você chama de morte
eu me recordo.

Mais acima, ruídos, ramos de um pinheiro se movendo.
Então, nada. O sol fraco
cintilando sobre a superfície seca.

É terrível sobreviver
como consciência,
enterrada na terra escura.

Então tudo acabou: aquilo que você teme,
se tornando
uma alma e incapaz
de falar, encerrando abruptamente, a terra dura
se inclinando um pouco. E o que pensei serem
pássaros lançando-se em arbustos baixos.

Você que não se lembra
da passagem de outro mundo
eu te digo poderia repetir: aquilo que
retorna do esquecimento retorna
para encontrar uma voz:

do centro de minha vida veio
uma vasta fonte, azul profundo
sombras na água do mar azul. “

“Confissão” , Louise Glück

“Dizer eu não sinto medo –
Não seria honesto.
Sinto medo da doença, da humilhação.
Como todo mundo, tenho os meus sonhos.
Mas aprendi a escondê-los,
Para me proteger
Da realização: toda felicidade
Atrai a fúria das Sinas.
Elas são irmãs, selvagens –
No final, não há
Emoção, mas inveja.”

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